Páginas

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Tudo é palco para Dança Contemporânea em Domicílio


Você é um artista. Você tem uma entrega de dança para fazer. Você encontra a pessoa que vai receber sonada, com cara de “o que é isso”. Então você acorda seu público, explica a proposta, você detalha os procedimentos, e o recebedor topa. Então ele diz pra você dançar ali, no corredor estreito de um prédio da Praia de Botafogo, às 10h da manhã de sábado. Desperto, o venezuelano Leonardo Rodriguez, 34, vendedor, que está há duas semanas no Rio, festeja o presente enviado por uma amiga.

“Fui surpreendido, gostei de como se explicita o que o artista faz, por que faz. Foi uma ótima maneira de começar o dia”, desse Rodriguez.

Na casa da terapeuta corporal Katia Amaral, entrega no início da tarde, muitas indagações sobre o projeto, muitas questões partilhadas.

“É para fazer pensar sobre tudo, engloba todos os conceitos, inclusive a necessidade da arte como alimento, como feijão e arroz. A necessidade de criar também é nutridora. Isso certamente é novo e, em alguns lugares, alguns se sentem incomodados.”               

No Arpoador, na praia, no calor de mais de 35 graus, na metade da tarde. Na maratona do projeto Dança Contemporânea em Domicílio, Cláudia Müller entrega mais uma dança. Desta vez o público era a coreógrafa Ivana Barreto e a estudante de cinema Julia Menna Barreto.

“O que me atrai no trabalho é sua condição de deslocamento, a mobilidade que ele tem, sua capacidade de acontecer em pouco tempo, mas que faz uma diferença muito grande no meu dia. Aqui, a questão do tempo é importante. O trabalho acontece em pouco tempo, mas não passa rápido”, disse Ivana.

Julia tinha informações sobre o projeto, mas nunca assistira ao trabalho.

“Tem uma coisa que gosto muito que é a não necessidade de um espaço físico convencional, dele se apresentado em qualquer lugar. É bacana que ele prenda aos espaços fechados, que ele quebre regras e convenções.”

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Trânsito e trâmites da arte contemporânea

Falando em vocabulários, instâncias e inferências sobre e para a dança contemporânea brasileira, a imagem sugere uma nova visita, num espaço de muitos trâmites, quiçá também com trânsito para a arte contemporânea e suas vertentes. Mais um clic de Inês Correa.

Imagens para novos vocabulários (2)

Diante de Dançarinas Subindo a Escada, do impressionista Degas, exposta no CCBB/Rio, a professora de séries iniciais conversa com a amiga: “esta foi a primeira imagem que veio no Google... eu estava procurando imagens para a aula sobre dança”. Aí ela argumentou, ainda com a amiga, que, afinal, a ideia de bailarina é sempre o que surge na cabeça dos pequenos quando se fala de dança.  Poder assim, pode ser assado.
Interpelei a menina, numa conversa rápida, falando que ela poderia usar aquela e outras imagens, acrescendo a palavra “contemporânea” à pesquisa no portal. Certamente a diversidade de imagens e possibilidades para conversa com seus alunos seria outra, mais instigante e, na opinião que não manifestei lá, mas faço aqui, muito mais rica.
Aí volto para a entrega de dança feita para crianças de uma aula de teatro na Arena Cultural da Pavuna, semana passada. Muitas daquelas crianças nunca tinham assistido a um trabalho de dança. De qualquer tipo. Daí a potência desse encontro com uma das formas de se dançar na contemporaneidade.
Assim que a entrega terminou, as perguntas se sucederam:
“Ô, tia, só você dança isso?”
“Tia, foi você que criou os passos?”
“Tia, quando você vai aos lugares, é só no Rio de Janeiro?”
“Tia, você só faz dança ou também faz teatro?”
“Tia eu faço balé, mas ainda não dancei com sapatilha de ponta.”
Todas as perguntas apontam para questões relevantes e fundamentais na formação de público, na educação do gosto, na dinamização dos repertórios, com vetores que enriquecem a produção contemporânea hoje. As respostas são pontuais, devidamente circunstanciadas. Mas a experiência e a conversa destas crianças com um bailarino que os visitou, o olhar para algo novo em seu imaginário, e, principalmente, a possibilidade de perguntar são, dados pra lá de significativos dessa empreitada do Dança Contemporânea em Domicílio.

domingo, 28 de outubro de 2012

Imagens para novos vocabulários (1)


Acima, a obra Dançarinas subindo a escada, de Degas, que integra a exposição dos impressionistas, no CCBB, Rio.
 
Abaixo, Cláudia Müller numa entrega de dança para crianças de uma aula de teatro, na Arena Cultural Jovelina Pérola Negra, na Pavuna.
 
Por ora, apenas as duas imagens postadas, para atiçar a imaginação. No próximo post, algumas considerações sobre o movimento, os estereótipos, os tipos de dança e os repertórios possíveis de construção junto ao futuro público para a dança.



sábado, 27 de outubro de 2012

Das janelas, dos olhares, das conversas


O que pede o olhar, como responde o corpo, quantas frestas se abrem para as conversas sobre as possibilidades de comunicar com a dança? A imagem de Inês Correa feita na Lapa instiga esse diálogo.
 

Enquadramentos, focos, olhares

 
A ideia do corpo que dialoga com o ambiente, responde a ele e faz desse entorno o material de elaborações de sua própria dança, emerge nas diversas situações experimentadas durante as entregas do Dança Contemporânea em Domicílio.

Também a questão da linguagem, que só se efetiva a partir do olhar do outro, quando, enfim, o diálogo se circunstancia. São fragmentos de percepções para aquilo que se tem experimentado ao tocar a campainha de casas e apartamentos, ao se chegar a lojas ou restaurantes, ao adentar a uma das tantas escolas públicas municipais do Rio com suas grades, cadeados e segurança reforçada.

Nas entregas de sexta-feira, surpresa total para a professora de yoga Erica Humper, em Laranjeiras. Erica destacou a espontaneidade da performance, além da construção de um olhar específico para a arte e a dança.  E, ainda especialmente, o caráter questionador da obra em relação às frágeis condições para se produzir arte no Brasil:

“Tem que defender isso mesmo, pois, nesse país, é complicada a situação de quem trabalha com arte.”

Nesse trânsito e, em trânsito, segue a dança para a Glória, numa entrega a integrante da Projetéis – Cooperativa Carioca de Produção Cultural. A apresentação foi um momento inaugural para o caseiro Alexander Nascimento, 35.

“Nunca tinha assistido a alguma coisa assim. É algo maravilhoso, que mostra a capacidade do ser humano.”

A produtora Talita Caetano, 26, destacou o caráter de acessibilidade à dança contemporânea proporcionado pelo projeto.

“É completamente diferente essa possibilidade de se ter isso em casa. A acessibilidade é tal, que não há nada parecido. Ir à Pavuna, Bangu e tantos outros espaços é especial.”

Na casa da atriz e diretora Juliana Tolentino, mais identificações, mais encontros estéticos.

“É bom receber sensibilidade em casa. Estou para sair e saio para a rua muito tocada. E essa questão da produção de arte, da circulação, é permanente e deve sempre ser tocada.”

Na casa da atriz e produtora Rejane Zilles, que estava acompanhada da psicanalista Juliana Torres, a entrega gerou conversas animadas, debates.

“A ideia é genial, me tocou profundamente esse discurso sobre a arte, que sempre foi e será um lampejo, uma centelha, um disparador de muitas outras questões”, disse Juliana.

Para Rejane, a ação artística do Dança Contemporânea em Domicílio é mobilizadora:

“Como artista, o trabalho me tocou muito, deu um arrepio, é muito corajoso. Além disso, o formato é muito importante, pois aciona essa questão da democratização da dança, que tem mais dificuldade de chegar ao espectador do que o cinema ou o teatro, por exemplo. E o projeto é importante para mostrar o que é dança contemporânea algumas de suas propostas.”
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Contaminações possíveis da dança



O olhar que recebe, o corpo que anuncia, a vitalidade das ações artísticas, a eficiência dos encontros, as reverberações produzidas. Quantos e quais vetores dão gás à dança contemporânea brasileira?