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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Uma dança para os Gregório de Bangu


Bangu contava os prejuízos e consertava suas casas nessa segunda-feira. Na Rua Tintureiro, boa parte das oitenta pessoas que moram em nova casas do número 769 estava nessa função. Crianças e adultos. E foram eles que, aos poucos, formaram a plateia da entrega de dança que Cláudia Müller fez ali mesmo, na entrada da espécie de vila improvisada. Seis, oito, dez, catorze pessoas assistiram ao trabalho. Encantadas, entre risos dos pequenos e olhares atentos dos adultos, a turma da família Gregório aplaudiu no fim. E sentiu-se pra lá de importante e aliviada num dia tão desafiador.
Luiziana Gregório, 25 anos, três filhos, assim se manifestou sobre o que vi:

“Isso traz tranquilidade, calma, paz. Gosto de teatro, de dança. Queria botar minhas filhas na dança. Só não vou mais ao teatro porque não tenho dinheiro. Isso realmente transmite paz pra gente. E o interessante é que ela veio aqui trazer.”

Na hora da despedida, Luiziana, uma das mais falantes integrantes da família Gregório deu seu veredito para a ação:

“Isso é cultura!”

Para ver melhor a foto de Inês Corrêa, clique sobre ela.

Hoje tem função na Pavuna e no Leme

Programa duplo do Dança Contemporânea em Domicílio nesta terça-feira: pela manhã e à tarde, entregas de dança na Pavuna. À noite, às 21h, no Teatro Glaucio Gil, exibição do vídeo Fora de Campo, com debate com a diretora e crítica Daniele Ávila. A entrada é franca. A exibição da produção co-dirigida por Cláudia Müller e Valeria Valenzuela  serve de “start” para os pedidos de entrega em Copacabana e no Leme, que serão dias 27 e 29. O fone é:  93007896.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Isto não é um texto

Inês Corrêa chegou! Fomos a Bangu, entregamos dança, ela fotografou, eu devo ainda fazer um post. O blog deve começar a ter imagens! Mas, inspiradora foi a conversa no fim da tarde, em Ipanema, "limpos" pelas águas de Iemanjá. Falamos sobre o que é fotojornalismo, foto publicitária, foto para dança, foco de trabalho e dos estudos dela. Daí que, como a partir de agora teremos fotos postadas e provocado por ela, arrisco-me a postar as fotos abaixo. Espero que os leitores consigam ver as imagens que descrevo. Só para quem não sabe: ao entregar danças, Cláudia Müller usa figurino laranja e lilás.
 
Foto 1

O casal se ajeita na rua estreita, ela ocupa uma cadeira, que vira sua arquibancada. Na casa ao lado, no portão, mãos penduradas, uma senhora negra de cabelos brancos, sem vários dos dentes da frente pita algo como um cigarro, na outra casa, da laje, um rapaz olha para baixo. Três meninos passam correndo, estourando estalinhos. Diante desse quadro, um borrão lilás-alaranjado se move.

Foto 2

Há uma mureta, seis pessoas sentadas nela. Cinco mulheres, um travesti. Ele ri, melhor, ele sorri. Atrás deles, mais gente. Barulho das motocicletas intermitentes das ruas da Maré. No outro lado da rua, pagode tocando solto na máquina de música. Numa das mesas, quatro rapazes bebem uísque e mordiscam algo. Na outra mesa, recém-ocupada, dois rapazes tatuados e uma negra charmosa servem cerveja gelada. Entre os dois grupos, um borrão lilás-alaranjado se move.

Foto 3

É quase noite, as ruas da Maré ficam mais escuras. Mesmo na transição da tarde para a noite, as crianças seguem soltas. Numa que outra esquina, o comércio endola. Não há muita preocupação por quem passa. No meio do quarteirão, num boteco, o trio de rapazes divide cervejas. Um deles acena ao ver uma mancha tripla lilás-alaranjada cruzando.
 

Hoje tem entregas em Bangu

Dia de voltar a Bangu! Daqui a pouco, a van do projeto Dança Contemporânea em Domicílio parte da Casa da Glória rumo ao bairro, para as entregas. E hoje tem a companhia bacana de Inês Corrêa, fotógrafa que vai registrar esse processo todo em imagens! Para amanhã, entregas na Pavuna! Pedidos pelo fone: 93007896.

A poesia possível numa entrega de dança

“Que tipo de poesia você faz?” Essa foi a pergunta do garoto Renato Habib Costa, 12 anos, assim que assistiu à exibição de Fora de Campo, sábado, às 15h, no Parque das Ruínas, em Santa Teresa. Cláudia Müller explicou que a citação sobre poesia, feita numa fala anterior, se referia a um estudante de 16 anos da Pavuna, que lhe perguntara sobre método de criação, revelando que faz teatro e tenta escrever poesias.

Fiquei particularmente feliz com a pergunta. Num dos trechos da exibição do vídeo, uma das falas é de que “a poesia está no entre...”. Falam o menino e a senhora, sobre uma poética que, mesmo não explicita, pulsa em Dança Contemporânea em Domicílio. Ela diz respeito ao encontro, à confiança no diálogo, à partilha de desejos e esperança, à aposta nas relações. Brinquei com o garoto dizendo que Cláudia faz, sim, poesia. São versos sobre amizade, urgência, toque, afetos, diálogos, delicadezas, solidão, urgências.

A forma como as entregas emocionam o público é pura poesia. Provocam emoção, acionam lembranças, atiçam desejos e sonhos. Feliz por ter pedido uma dança para seu cabeleireiro, Neilde Barcelos, 51 anos, auxiliar administrativo, moradora da Maré, disse que uma entrega como a proporcionada pelo projeto “é pura alegria”. E continuou:

“Nem todo mundo sabe o que dança contemporânea. Poderia ter mais pessoas para levar dança em qualquer lugar, sem barreiras. Vir a um a comunidade como a Maré foi bacana demais.”

Esse trânsito entre o conceito e a estética, numa ação potente de significados, aciona outros tantos “entres” de Dança Contemporânea em Domicílio. Entre o arrojo e a simplicidade, entre o discurso e a prática, entre a vontade de tocar pela delicadeza e a necessidade de ser agressivamente significativa. Cada movimento, cada fala, cada verso, cada poesia. Afinal, o corpo contemporâneo é o somatório disso tudo e mais.
 

domingo, 21 de outubro de 2012

Olhar fotográfico para a dança

Inês Corrêa é pesquisadora e fotojornalista, mestranda em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo. Foi fotógrafa colaboradora da Folha de S Paulo e Folha da Tarde e produtora executiva do programa sobre desenvolvimento sustentável Espaço do Litoral, TV Cultura - Litoral. É repórter fotográfica da agência P.A.P.A – Participating Artists Press Agency, sediada em Amsterdã - Holanda, coordenada por Lino Hellings, socióloga. Começou a fotografar teatro e dança no Teatro Coletivo, antigo Teatro Fábrica e realiza trabalhos profissionais para Cia. Taanteatro; Keyzetta e Cia.; Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira Cia. de Dança, Cia. Borelli de Dança, Cia. Flutuante, Grupo Gestus, Cristian Duarte, Emilie Sugai, Júlia Rocha, Gícia Amorim, Eduardo Fukushima, Diogo Granato, Raul Rachou e Helena Bastos entre outros. Também é Membro do CED - Centro de Estudos em Dança (PUC/SP). Neste domingo, Inês chega se junta ao Projeto Dança Contemporânea em Domicílio para registros das entregas que estão sendo feitas por 15 bairros cariocas. Aqui, um papo com a profissional sobre as nuances de seu trabalho, que tem focado a dança com significativa propriedade.


- Qual a especificidade da fotografia de dança, o que ela exige do profissional?
A fotografia de dança, como a fotografia de qualquer coisa – gastronomia, turismo, natureza, política, guerra –, tem sim sua especificidade, Carlinhos. Vou começar a responder sua pergunta refletindo primeiro sobre como buscar esta especificidade. Penso que para encontrá-la o que é exigido de um profissional antes de qualquer coisa, é envolvimento, ou seja, o fotógrafo fotografa aquilo que afeta sua percepção. Mas como se envolver sem se apaixonar para um contato mais próximo, mais íntimo? Porque escolheria a dança para meu fazer fotográfico se gostasse mais de futebol ou de guerra? Esta escolha do fazer o que se gosta pode ajudar, e muito, no encontro das especificidades desta fotografia, desta escrita da luz do movimento. Para que aconteça um encontro mútuo: fotografia-dança, dança-fotografia. Um querer se encontrar. Escolher a dança para criar uma imagem é se deparar com o corpo em movimento contínuo no espaçotempo.


- Na tua proposta em especial, o que interessa na hora de fazer uma foto/ensaio?
Existem muitas pesquisas diferentes acontecendo na dança. Um universo que vem em direção da fotografia. Como sou jornalista, como você Carlinhos, imagino que o que me interessa é a diversidade dela, da dança. Sou curiosa, quero conhecer, muitas, se puder todas as propostas que acontecem em dança hoje. Na hora da foto o interesse pode mudar. Dependendo do que tenho para fotografar. Não consigo pensar num único olhar fotográfico para propostas tão distintas. Perceber as diferentes propostas e “traduzi-las” em imagem fotográfica depende de muitas escolhas que acontecem na hora da foto. Não há um manual de instrução, há um querer ver aquele objeto em memória, querer criar uma memória da dança utilizando-se da fotografia.


- Por que a dança te atrai profissionalmente?
Sempre digo, Carlinhos, que a dança mudou meu olhar, meu fazer fotográfico. Olhar a dança e torná-la imagem fotográfica é algo que me inquieta. Ao fotografar começo pela luz, afinal, fotografia quer dizer grafia da luz. Depois a dança me capta pelo movimento do corpo e, consequentemente o tempo fotográfico deste corpo. Olhar a dança hoje, estas danças que acontecem atualmente, para mim, é ter contato com o tempo de agora para guardar a memória deste tempo, deste corpo que se expõe em dança, em movimento. É fazer deste fato um acontecimento.


- O que te mobiliza em especial nesse projeto Dança Contemporânea em Domicílio?
Fotografo dança somente desde 2007 e, quando a Cláudia Müller entrou em contato comigo e propôs que eu fotografasse o Dança Contemporânea em Domicílio foi uma honra porque o trabalho que ela sugere é inusitado. Por outro lado, ficou muito claro para mim o que falei logo acima, sobre o gostar do que se faz e quanto isso nos leva ao encontro, neste caso dança-fotografia, proporcionado pela Cláudia ao me escolher para fotografar seu projeto e fotografia-dança, que será a forma como vou expressar em imagem o Dança Contemporânea em Domicílio.


- Como você acompanha a cena da dança brasileira, o que pensa sobre ela?
Bom, Carlinhos, não vejo uma cena da dança brasileira. Vejo muitas cenas. E é isso que me faz querer mais e mais fotografar dança. Porém não sou a pessoa mais indicada para falar sobre dança. Existem profissionais especializados. Mas posso falar sobre a fotografia de dança que pode tornar visível esta cena ou aquela, fazer uma cena sair de um domicílio e entrar em outro em forma de imagem, deslocar o palco para o papel, para a internet.


- Você está com um projeto específico? Qual?
Estou preparando uma dissertação de mestrado na PUC-SP e meu objeto de estudo é a fotografia de dança e como ela pode contribuir para uma reflexão sobre o papel da fotografia jornalística com recorte no jornalismo cultural. Ou seja, neste projeto a ideia é propor uma reformulação dos critérios de publicação das fotografias jornalísticas no campo do jornalismo cultural.
Para acompanhar outros trabalhos de Inês Corrêa, seguem dois links bacanas, do site e do blog que ela mantém:


sábado, 20 de outubro de 2012

Muitos movimentos da Maré

Adriana estava num dia especial. Ontem 19 de outubro, era seu aniversário. No meio da tarde, Cláudia Müller grita pelo seu nome, em gente ao número 41 da Rua santa Rita, na comunidade de Nova Holanda, na Maré. Rita desceu com o marido e recebeu a entrega ali na rua, Assim, os vizinhos também veriam, raciocinou. Ao fim, disse:
“Parabéns pelo despojamento, você é uma artista”.
O veredito de um dos 135 mil habitantes das 17 comunidades da Maré sinaliza a potência do gesto da artista, que, em mais uma etapa do projeto dança Contemporânea Contemporânea em Domicílio, circulou por vários pontos da comunidade fazendo suas entregas.
Na primeira delas, a cozinheira Michelle Oliveira 34 anos, parou suas tarefas na Lona Cultural para assistir ao trabalho, entregue ali, em frente ao prédio.
“Você trabalha numa cozinha e aí vem alguém dar algo assim pra você, é muito legal”, disse Michelle, toda feliz.
Michelle, Adriana e outros tantos recebiam suas danças com certo ar de incredulidade. Afinal, seus espaços de trabalho, sua rua e casa, viraram palco, sala de apresentações, ambiente de produção de arte.
Sobre formas de produção e de circulação girou a conversa com os alunos do Coletivo de Dança da Escola Livre de Dança do Centro de Artes da Maré Núcleo 2. Parte da turma já tinha assistido ao vídeo Fora de Campo e, na sexta, recebeu uma dança. Os sentidos de dança, os espaços possíveis para fazer arte, as condições e as estruturas de produção e circulação de dança contemporânea no Brasil ou fora dele foram tocados na roda de conversa, que teve a presença da coreógrafa Lia Rodrigues, cuja sede de suam companhia é na Maré.
Novo caminho, então, na imbricada malha de ruas e Vielas da Maré. Chegando ao departamento financeiro do Redes de Desenvolvimento da Maré, a acolhida teve esse sentido:
“Altera a rotina, com um texto contestador”, disse, entre outras coisas, Cazé, que recebeu a entrega dos alunos do Centro de Artes.
Na Maré foi um pouco assim, tocante e mobilizador. E esse é só um fragmento do que rolou por lá.